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quinta-feira, 29 de abril de 2010

Corpos de bombeiros mortos são enterrados


Resende

Os corpos do major-bombeiro Jasper Sanderson, 34 anos, e do aspirante a oficial, Guilherme Augusto Neto, 28 anos - mortos na queda de um avião do Corpo de Bombeiros anteontem, em Resende - foram sepultados ontem no Rio de Janeiro, às 16h. Jasper era o piloto e Guilherme o passageiro do avião monomotor de combate a incêndios florestais do Corpo de Bombeiros do Estado do Rio de Janeiro, que caiu por volta das 16h de terça-feira na Rua José Estevam da Motta, no bairro Santa Isabel, em Resende.

O acidente ocorreu minutos depois da aeronave decolar do aeroporto da cidade, para um voo de reconhecimento de área. O exercício serviria, posteriormente, para que bombeiros pudessem treinar combates a incêndios na mata no entorno do Pico das Agulhas Negras. O avião explodiu ao bater no solo e as vítimas foram carbonizadas.


Os corpos foram retirados dos destroços por volta as 23h30 de ontem, após técnicos do Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aéreos da Aeronáutica (Cenipa) realizarem uma perícia preliminar no local do acidente.

O trabalho dos peritos continuou durante todo o dia de ontem. A Rua Estevam da Motta, onde o avião caiu, continuava interditada. No final da tarde, o motor e a hélice do avião foram enviados para o Departamento de Ciência e Tecnologia Aeroespacial (DCTA) de São José dos Campos, e a fuselagem do avião vai permanecer por enquanto no quartel do Corpo de Bombeiros de Resende.


De acordo com o Coronel Investigador da Cenipa, Antônio Augusto Walter de Almeida, a Aeronáutica designou uma comissão de três investigadores para atuar no local do acidente, colhendo informações técnicas, realizando registros fotográficos, entrevistas com moradores e com pessoas que assistiram ao acidente para redigir um Relatório de Ações Iniciais que deverá ficar pronto em 30 dias. O relatório final tem o prazo de até 12 meses para ser concluído.

- Nós chegamos ontem à noite e estamos colhendo documentação, fotos, entrevistando moradores que estavam no condomínio na hora do acidente, moradores das casas vizinhas, para entender o que pode ter acontecido. Nós trabalhamos de acordo com normas internacionais e o nosso objetivo não é procurar culpados, mas sim trabalhar com diversas linhas de pesquisas para prevenir futuros acidentes aéreos.

Depois dessa pesquisa preliminar outras serão desenvolvidas com engenheiros, psicólogos, investigadores científicos. O motor, a hélice bem como outras partes do avião serão enviadas para o Departamento de Ciência e Tecnologia Aeroespacial (DCTA) de São José dos Campos, para serem analisadas com profundidade. Serão feitas contas, medições, laudos de engenharia, além de um perfil psicológico do piloto. Tudo isso será investigado e o relatório final vai ser publicado no site do Cenipa e enviado a todas as partes envolvidas - explicou o coronel, acrescentando que o piloto fez um plano de vôo de decolagem do Rio de Janeiro por volta de 12h30, e que o avião era um monomotor agrícola da Air Tractor adaptado para o Corpo de Bombeiros.


Sobre a hipótese de que o piloto teria desviado do prédio para evitar um acidente maior, o coronel disse que ainda é muito cedo para se afirmar isso. "O avião agrícola é feito para voar baixo, estamos investigando o que pode ter acontecido. Através dessa perícia poderemos evitar outros acidentes. Há acidentes que são bem fáceis de entender, este está um pouco difícil. Temos que colher mais informações, não dá para afirmar que o piloto desviou intencionalmente do prédio, ainda é muito cedo para tirar conclusões", declarou o investigador.



Moradores abalados

Os moradores do bairro Santa Isabel ainda estão muito abalados com o acidente. A arquiteta Andreza Heringer Tavares, moradora do primeiro andar do Bloco 3, local mais afetado com a queda do avião, contou para a equipe do DIÁRIO DO VALE como ocorreu o impacto da aeronave no solo e as explosões que aconteceram logo em seguida.
- Estou até agora em estado de choque. A impressão que eu tive é que estava estourando uma bomba dentro da minha casa. Eu vi uma bola de fogo entrando pela janela.

Eu não conseguia entender nada. Só deu tempo de arrastar a cama da minha filha de perto da janela para o colchão não pegar fogo e alastrar mais fogo pelo apartamento. Ela não estava em casa na hora, se estivesse no quarto não quero nem pensar. Depois que eu puxei o colchão sai do apartamento gritando e chamando todos os outros moradores para sair. Só fomos entender que era um avião que tinha caído na rua quando chegamos ao térreo. Nós já estamos acostumados com o som de aeronaves decolando e aterrissando o tempo todo, o nosso bairro é vizinho ao aeroporto, isso para nós já é normal.

Mas ontem houve um estrondo enorme, e logo depois a chama invadiu o apartamento e depois houve muita fumaça, muita fuligem - contou Andreza, afirmando que não vê a hora de poder limpar a casa e voltar à rotina. "Ontem vieram quatro perícias aqui, mas todas do Estado, ainda não veio nenhuma perícia de seguradora, então nós não podemos tirar nada do lugar. Isso precisa ser resolvido. Preciso limpar a minha casa e voltar à vida normal o mais rápido possível", disse Andreza.


Júlia Mello Santiago Marques, de 28 anos, moradora da Rua Dona Arcídia, transversal à rua onde ocorreu o acidente, disse que o estrondo do avião batendo no solo e os gritos dos tripulantes não saem de sua cabeça.
- Eu estava chegando em casa. Vi quando o avião decolou do aeroporto e achei que ele estava voando muito baixo. Fui guardar a bicicleta e quando voltei ele estava dando a volta na rua e quase batendo no prédio do condomínio.

O chão estremeceu todo e os dois tripulantes gritavam muito: "Vai cair! Vai cair!". Eles gritavam desesperadamente. Depois que o avião caiu houve uma explosão com o impacto. Corri em casa, chamei meu esposo, viemos para rua ver se tinha mais alguém machucado. Chamamos o Corpo de Bombeiros na hora. Depois da queda houve outra explosão. Moro nesse bairro há um ano e nunca vi nada igual, eles estavam voando muito baixo, eu pensei que eles iam bater no prédio - contou Júlia, que ressaltou o fato do acidente não ter causado mais vítimas. "Não consigo esquecer os gritos deles.

Foi muito triste e um verdadeiro milagre não ter morrido mais ninguém. Graças a Deus não tinha ninguém na rua naquele momento e também não machucou os moradores do prédio em frente. Graças a Deus. Eles foram muito habilidosos em impedir o avião de bater contra o prédio", apontou a moradora.
Anderson Mendonça, de 36 anos, morador da Rua Abílio de Souza, também próxima ao local do acidente, também apontou o fato do acidente não ter causado mais vítimas.


- Foi um milagre mesmo. Eu também vi quando eles decolaram, estava muito baixo, mas o som do motor parecia normal. Parece que eles tiveram um problema para comandar o avião e tentaram retornar para o aeroporto, mas havia um helicóptero realizando vôos de paraquedismo, então eles tentaram fazer uma curva, mas o avião virou de barriga para baixo de caiu de bico no meio da rua. Dava para ouvir os gritos deles de dentro do avião: "Vai cair! Vai cair!". Eles gritavam muito alto, muito alto mesmo, foi horrível. Moro aqui há cinco anos e sempre vejo avião voando baixo por aqui, mas coisa igual a essa eu nunca vi. Foi um milagre não ter morrido mais ninguém - disse o morador.

Piloto não teria comunicado ao aeroporto de Resende sobre voo

De acordo com o coordenador operacional do aeroporto de Resende, Nélio Silva Sampaio, o Major da Brigada Aérea do Corpo de Bombeiros, piloto Jasper Sanderson Penna de Assis, de 31 anos, morto no acidente aéreo de ontem à tarde em Resende, não comunicou nem ao coordenador, e nem a nenhum funcionário do aeroporto, ou da prefeitura, que iria aterrissar com o Air Tractor modelo AT802F, prefixo PREPM, para realizar quaisquer tipos de treinamentos no município. Nélio disse ainda que o avião estava sob a responsabilidade do piloto e que ele é autoridade máxima dentro de uma aeronave.


- Nosso aeroporto não é controlado, ou seja, quando o aeroporto é controlado por instrumentos os funcionários são comunicados imediatamente sobre os planos de vôos, mas este não é o nosso caso. O aeroporto ainda aguarda a liberação da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) para voltar a funcionar. Nesse caso cabe ao piloto se inteirar das condições do avião e do aeroporto em que ele pretende aterrissar. Subtende-se que ele está ciente das condições do aeroporto para onde ele está indo.

Como ele não estava fazendo treinamento militar, e nem estava em situação de emergência, deveria seguir as regras normais da aviação civil. Nós não tínhamos conhecimento de que o piloto viria para Resende. O bom senso seria ele pedir uma autorização para utilizar o aeroporto, e essa autorização seria emitida pela Anac em caráter excepcional.

O fato dele ter feito um plano de vôo antes de sair do Rio não é alvará para nada, o piloto tem que fazer esse plano de vôo para poder sair do aeroporto onde se encontra o avião - disse Nélio, acrescentado que as únicas situações em que ele poderia impedir uma aeronave de decolar do aeroporto seriam as de anormalidade cível. "Nós não podemos impedir uma aeronave de aterrissar ou de decolar do aeroporto. Só poderíamos fazer isso se percebêssemos uma anormalidade de caráter cível, como contrabando ou sequestro, mas ainda assim teríamos que acionar a polícia", explicou o coordenador.


Sobre uma das hipóteses levantadas por um dos moradores de que o piloto teria tentado voltar para o aeroporto, mas não pode aterrissar porque havia um helicóptero de paraquedismo no ar, Nélio descartou essa possibilidade.
- Esse helicóptero de paraquedismo é militar e está no aeroporto realizando manobras desde o início da semana, mas não houve interferência nem do helicóptero nem de nada nesse acidente. Inclusive, no momento que ocorreu o acidente, o helicóptero estava parado. Volto a dizer que o avião do bombeiro estava sob a responsabilidade do piloto, e ele é a autoridade máxima dentro do avião - afirmou Nélio.

* Na matéria publicada na edição de ontem do DIÁRIO DO VALE, estava escrito que peritos da Polícia Civil estavam no local do acidente. Na verdade, os peritos são do Instituto de Criminalística Carlos Éboli (ICCE), órgão que é independente da Polícia Civil.

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